Amesterdão: Sexo, Drogas e Flores?

Tinha acabado de vir da ilha de São Miguel, nos Açores, e o meu síndroma de wanderlust estava ainda em intensa manifestação. Penso que foi isso que me levou a fazer algo que já habitualmente faço, mas que nunca dá resultados de forma tão imediata: consultar sites de companhias aéreas, colocar datas aleatórias e ver quais os voos mais baratos. Isso levou-me até Amesterdão no último mês de Março e exatamente um ano depois de ter reservado a viagem – é uma boa tática para conseguir preços mais baixos e para ir repartindo as despesas ao longo do ano.

 

Amesterdão nunca esteve no topo da minha lista de preferências para viajar, embora me despertasse alguma curiosidade por uma série de liberdades que são conhecidas daquela cidade. No entanto, no que toca a viajar, às vezes não deve haver preferência e o melhor é deixarmo-nos ir!

Mais uma vez fiz a reserva de um voo easyJet e, pela primeira vez, fiquei também num hotel do grupo da companhia aérea, o easyHotel Amsterdam Arena Boulevard – reservei o hotel apenas alguns meses depois de ter reservado os voos. Devo dizer que fiquei bastante surpreendida com o quarto e o sistema de arrumação e organização de que dispunha; com todos os cómodos necessários para quem passa o dia na rua e apenas pretende o quarto para pernoitar, este hotel tinha também uma óptima localização, situando-se mesmo na lateral de uma das principais estações de Amesterdão e, por isso, sendo bastante acessível a transportes – para os amantes de futebol, deixo também a dica de que, mesmo ao lado do hotel, fica o estádio do Ajax!

 

A primeira etapa para quem chega ao aeroporto de Schiphol, como foi o meu caso, deverá ser conseguir um meio de transporte para se deslocar até ao hotel. Como cheguei num voo noturno receei que fosse complicado adquirir algum tipo de bilhetes para transporte, o que não se verificou, de todo; o aeroporto possui uma enorme bilheteira, de atendimento bastante célere – possivelmente por causa da hora! – onde se podem comprar diversos tipos de bilhetes para transportes públicos.

À semelhança do que acontece noutras cidades, também em Amesterdão existe um bilhete que comporta transporte e entradas em vários locais (bilhetes de e para o aeroporto não estão incluídos, sendo que podem consultar todos os preços no final deste artigo). O bilhete chama-se I amsterdam City Card, pode ser comprado online, antes de viajarem, ou ser facilmente encontrado em quiosques e estações pela cidade de Amesterdão – no meu caso era vendido, também, na receção do hotel – e o valor varia consoante o número de dias que se pretendam comprar. Se o desejado é visitar muitos locais, é sem dúvida compensatório (além disso, tem incluída uma viagem de barco pelos canais)!

 

Verifiquei naquela cidade que nunca tinha sentido verdadeiramente frio na minha vida! Visitá-la em Março foi claramente uma má ideia para quem está habituada ao clima de um país do sul da Europa. Contudo, esse frio apenas se sente na rua, uma vez que todos os edifícios estão bastante bem preparados em relação à climatização.

Talvez seja devido ao frio que parte dos serviços encerra bastante cedo quando comparado com a realidade portuguesa; praticamente todos os museus e monumentos fecham por volta das 17 horas, o que complica um pouco a organização de quem pretende visitá-los, tendo que se fazer opções que por vezes não são fáceis; ter que optar pelo Museu Hermitage, o Museu Van Gogh, o Museu de Amsterdão, a Casa de Anne Frank entre outros tantos é tarefa pouco simpática!

O meu primeiro dia em Amesterdão foi abençoado com um pequeno nevão matinal cujo frio que trouxe se fez verdadeiramente sentir assim que coloquei o pezinho fora da porta do hotel! Brrrrrrrrrrr! No entanto, não foi motivo suficiente para impedir o passeio pelo centro da cidade. Dica número 1: uma boa forma de aquecer durante os passeios é ir entrando nas lojas!

Diria que é fácil perdermo-nos na cidade se não trouxermos um mapa – e mesmo assim…! A similaridade dos edifícios e os infindáveis canais fazem-nos perder um pouco os pontos de referência nas primeiras horas. No entanto, isso leva a que nos embrenhemos por ruas e ruelas onde existem montras de doces que nos deixam quase literalmente a babar – e, depois disso, a engordar também! Dica número 2: sem remorsos, comprar um pretzel ou um waffle quentinho para ir saboreando enquanto se passeia – na verdade pode ser a única comida verdadeiramente apreciada, caso se esteja habituado a uma dieta mediterrânica, uma vez que a cozinha Holandesa… tem boas tostas de salmão!

 

Durante os passeios – que se podem fazer a pé, de bicicleta (quando não estamos a tentar não ser atropelados por uma!) ou de transportes públicos – são imensos os locais que podem ser visitados em Amesterdão e que estão incluídos no I amsterdam City Card. Para os interessados em artes, Amesterdão possui um grande leque de locais imperdíveis, alguns deles estão localizados no chamado Quarteirão dos Museus (Museum Quarter), sendo que consegui visitar os seguintes:

 

Rijksmuseum

Este museu, inaugurado em 1885, à semelhança do que acontece com muitos outros edifícios em Amesterdão (e na Holanda em geral), encontra-se abaixo do nível do mar. Possui mais de 800 anos de arte organizadamente repartidos pelas suas 80 salas ao longo de quatro andares, tornando-se assim num local bastante fácil para – acho que já disse isto antes – nos perdermos! Aqui, entre as milhares obras de arte em exposição, podemos ver “A Leiteira”, a conhecida pintura a óleo sobre tela do séc. XVII da autoria de Vermeer, e a “A Ronda Noturna”, o retrato de grupo dos membros da Guilda de Arcabuzeiros de Amesterdão, também datado do século XVII e da autoria de Rembrandt.

Em tempos situado fora do centro da cidade, o edifício possui ainda uma passagem, mesmo com todas as renovações e alterações que foi sofrendo ao longo do tempo, que ligava a então zona nova da cidade, onde fora construído, ao centro da mesma.

Dada a imensidão deste museu decidi comprar o livro guia; verificou-se bastante útil para perceber a complexidade e as informações gerais de muitas das obras expostas, assim como para ajudar a encontrar as saídas e entradas nas várias salas!

Curiosidade: todo o átrio central do museu é revestido com pedra calcária portuguesa!

 

Museu Van Gogh

Bastante perto do Rijksmuseum, também no Quarteirão dos Museus, e ao lado do Banksy Museum – que não se encontra incluído no City Card e o qual também não tive oportunidade de visitar – encontra-se o Museu Van Gogh. Neste local composto por dois edifícios interligados pude admirar as obras de Van Gogh, as obras de outros artistas seus contemporâneos e conhecer um pouco mais da história pessoal daquele génio da pintura que partira cedo de mais graças aos seus problemas psiquiátricos. Aqui não era permitido tirar fotografias, de modo que não vos consigo ilustrar o que digo.

Embora incluídos no I amestram City Card, os bilhetes para este museu, aberto 365 dias por ano, têm que ser reservados através do site, uma vez que não existem bilheteiras físicas e as visitas são feitas com marcação de hora (quando fazemos a marcação no site é-nos pedido o número do cartão I amsterdam City Card).

 

Casa Museu Rembrandt

Já que falei de Rembrandt e da sua “A Ronda Noturna”, outro local que visitei e que gostei de conhecer foi a casa do pintor, onde este viveu e trabalhou entre 1639 e 1658 e que se situa no centro de Amesterdão. Além de conhecer a casa, decorada com mobiliário e objetos da época, pude também ter acesso a uma demonstração de todo o processo de fabrico das tintas com os métodos de então. Fiquei fascinada com a meticulosidade do trabalho! Todo o processo de moedura das pedras coloridas, combinações dos pós e dosagens é detalhadamente explicado por um especialista que nos deixa inteiramente à vontade para fazer perguntas e experimentar o processo.

 

Hermitage

O Hermitage foi o museu que tive mais dificuldade em visitar e só o consegui fazer à 2ª tentativa, tendo em conta a hora de fecho que é às 17 horas. Este também enorme museu é composto por uma exposição permanente e três exposições temporárias, todas elas incluídas no I amestram City Card.

Como cheguei a cerca de uma hora antes do fecho tive que optar por visitar apenas a exposição permanente e uma das exposições temporárias – e, ainda assim, bastante a correr; optei pela “Galeria de Retratos da Idade do Ouro” que consistia numa serie de retratos de grupo, do século XVII, integrantes das coleções do Rijksmuseum e do Museu de Amesterdão. Devo dizer que a maior sala da exposição era impressionante, embora não tenha fotografias para o comprovar, tal foi a correria com que visitei o museu! Se tiverem oportunidade, não falhem a visita!

 

No entanto, nem só de arte se faz Amesterdão. Esta cidade possui um enorme legado judaico intrinsecamente ligado à história da sua fundação e para a qual contribuíram muitos judeus portugueses. Foi maravilhoso fazer esta descoberta à medida que ia visitando a cidade.

Parte da história material e imaterial judaica de Amesterdão pode ser conhecida nos seguintes locais:

 

Quarteirão Cultural Judaico

O Quarteirão Cultural Judaico é composto por cinco locais que podem ser visitados com apenas um bilhete (também incluído no I amsterdam City Card): o Museu Histórico Judeu, o Museu Nacional do Holocausto, o Memorial Nacional do Holocausto, a Sinagoga Portuguesa e ainda um museu para crianças (este último o único que não visitei).

Através destes locais foi possível perceber  a relação histórica da cidade com o judaísmo, compreender algumas das tradições judaicas e ainda a influencia dos judeus portugueses na construção e desenvolvimento daquela cidade. Devo confessar que fiquei verdadeiramente surpreendida em relação a esta última ligação, pois embora já tivesse realizado alguma pesquisa antes de viajar, nada se compara à percepção que temos local!

 

Casa de Anne Frank

Não será possível falar de judaísmo em Amesterdão sem mencionar Anne Frank. Ter lido o diário e conhecer a história da menina de 13 anos, embora ciente da veridicidade dos factos, tornou-se em algo muito mais consciente depois de ter visitado o Anexo onde passou dois dos últimos anos da sua vida. Passar pela cozinha ou pelo quarto com a escadaria para o sótão de onde se avista a torre da igreja, tal como descrito no diário, deixa-nos uma sensação de singular inquietação.

Preparem-se para as filas, fora e no interior do Anexo; uma vez que todo o espaço é muito pequeno, parte da visita tem que ser feita em fila pelos visitantes. No entanto, à entrada, é facultado de forma gratuita um audioguia na língua mãe de cada visitante, para que não percam nenhum detalhe.

Aqui também não é permitido tirar fotografias no interior e o bilhete para visitar a Casa de Anne Frank tem que ser comprado no site do museu, à semelhança do que acontece com o Museu Van Gogh, sendo que, neste caso, o bilhete de entrada não se encontra incluído no I amestram City Card.

 

Perto da casa de Anne Frank existe ainda o Museu da Túlipa – cuja correspondência entre a localização no mapa e a localização na cidade não foi simples de entender, visto que a rua assinalada não estava correta – que, sendo um pequenino museu, permite perceber como foi iniciada a ligação do país àquela flor, assim como todo o processo de produção da mesma e a importância desta para a economia local (sabiam que os bolbos de túlipas chegaram a valer mais do que casas?). Depois disso, nada como visitar o mercado das flores, nas margens do canal Singel, e apreciar a enorme variedade de bolbos de túlipas – e não só – que por lá existem. É incrível!

 

Além de todos os locais que já mencionei existem muitos outros que, infelizmente, não tive oportunidade de visitar e que se encontravam incluídos no I amestram City Card. No entanto, consegui ainda fazer uma passagem pelo Vondelpark (de entrada gratuita), um dos parques mais famosos da Holanda, que, em dias mais amenos do que aquele em que o visitei, se deve tornar num excelente local para relaxar, tendo em conta os seus enormes relvados e lagos; pelo Museu de Amesterdão (incluído no City Card), onde é explicada toda a história da cidade, desde a sua fundação ao seu desenvolvimento em terrenos lodosos; e pela Praça de Dam, onde pude tirar fotos em frente ao Palácio Real e visitar o De Nieuwe Kerk Amesterdam, a segunda igreja paroquial construída em Amesterdão.

 

Suponho que por esta altura já se estejam a perguntar: “Então e o Red District e a liberação da canábis?”.

Sim, é verdade, é possível comprar canábis – e dela derivados: chupa-chupas, bolachas, rebuçados, chocolates,… há de tudo – em quase qualquer loja que tenha uma porta aberta! Mas, tirando o facto de ser de fácil acesso, não tenho grande coisa a acrescentar!

Quanto ao Red District – que, para quem desconhece o nome, corresponde à área de Amesterdão onde se encontram a maioria dos bordéis e outros locais relacionados com o negócio do sexo – sim, tem mulheres despidas ou apenas semi-despidas em montras asseadas! No entanto, aqui existem também diferentes salas de espectáculos de sexo ao vivo, variadíssimas sex shops e o Museu da Prostituição. Pareceu-me, contudo, que a rua era mais frequentada por turistas em busca de confirmação de um mito do que por clientes na procura de alguma satisfação – mas posso só ter passado num mau dia para o negócio!

 

Melhor do que tudo isto, para quem gosta de andar de barco, é fazer o passeio pelos canais e aproveitar para conhecer a cidade a partir de outro ponto de vista. A viagem que fiz estava incluída no City Card – só aqui “poupei” 16€ – e foi bastante divertida, muito graças ao capitão da embarcação que nos proporcionou um momento amoroso com a sua companheira, também ela capitã de outro barco, que, ao cruzarem-se no canal, atracaram os barcos um no outro e trocaram uma valente beijoca!

As pessoas, ao contrário do que imaginava e embora reservadas, são acessíveis e chegam a fazer alguma conversa, havendo até quem tivesse feito um esforço para falar português comigo – algo que, para ser sincera, não estava mesmo nada à espera!

Com tudo isto, e para conseguir ver tudo o que vos falei anteriormente, houve algo que tinha programado e que acabei por não fazer, mas que aconselho a quem tiver oportunidade: uma visita de um dia à cidade de Haarlem (ou Harlemo, em português). A cidade situa-se a sensivelmente 20km de Amesterdão e bastam cerca de 10€ e uma viagem de 20 minutos de comboio para lá chegar. Aqui, entre outras coisas, podem passear de bicicleta entre enormes campos de túlipas, caso vão numa altura em que estejam florescidas. Terei que lá voltar para fazer isso!

Fui até Amesterdão pensando que iria encontrar uma cidade libertina, banhada por canais lodosos e com um povo distante. Mas o que vi foi uma cidade livre, com muito mais do que sexo, drogas e flores, com uma relação especial com a água, culturalmente bastante interessante, que me surpreendeu pelo acolhimento e cuja influência portuguesa – como qualquer português um tanto ou quanto narcisista – gostei de conhecer!

Agora só tenho que lá voltar para passear de bicicleta por entre os campos de túlipas floridas de Haarlem… alguém quer vir? 🌷

 


Quanto?

Voos easyJet (Lisboa – Amesterdão – Lisboa) 104,56€/pessoa, com mala de porão

easyHotel Amesterdam Arena Boulevard (4 noites) 198€/pessoa

I amsterdam City Card de 59€ a 98€

Viagem de metro (Aeroporto de Schiphol – Amsterdam Bijlmer Arena Station) 3,90€

Casa de Anne Frank 19€

Livro guia do Rijksmuseum 10€

 

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