Lourdes, o diário de bordo

Não saio de Portugal Continental há praticamente 2 anos. A minha última viagem além fronteiras fora até Barcelona, em outubro de 2019, e o ambiente conturbado que se vivia por lá parecia já fazer adivinhar que o mundo ia ficar de pantanas, embora não pela razão que se veio a verificar.

 

Hoje, quase 2 anos depois, volto à estrada, literalmente. Lourdes, a religiosa cidade francesa vizinha dos Pirenéus é o destino, porém, não creio ser a fé que me move até lá. Vou para acompanhar, para ver, para sentir, para absorver um novo lugar com tudo o que nele é e que de mim possa ser também. Parto por poucos dias (serão sensivelmente 3), mas parto, finalmente, depois da pandemia nos ter retido.

Por isso decidi fazer algo que já havia feito na viagem a Marrocos: escrever e partilhar um diário de bordo, para que possam acompanhar a experiência da primeira viagem “pós-pandemia”. Para já levo a exigência do Certificado de Vacinação, do Cartão Europeu de Saúde, e da Identificação; para cá espero trazer muito mais.

 

Dia 1 – 1 de outubro
Coimbra – Lourdes

Dia 1. Dia (ou antes noite) da partida em direção a Lourdes. O relógio marcava as 20 horas certas quando os motores do autocarro iniciaram a marcha.

A noite é feita em viagem e há quem no autocarro decida rezar o terço em voz alta e pedindo acompanhamento. Oiço e respeito o burburinho síncrono com o meu silêncio.

Por volta das 22 horas já havíamos passado a fronteira para Espanha e os relógios avançado 1 hora. Desta passagem recordo os 2 cafés que valeram mais do que 1 Torrão de Alicante, mas adiante!

Deixou-me em claro, claro, aquele café. Vi passar a cidade de Salamanca e outras tais, ouvi o passageiro da frente que já ressonava, senti o de trás que me cravava os joelhos nas costas do assento e tapei os ouvidos com o grupo de passageiras de meia idade que, mais atrás ainda, se comportavam como adolescentes a caminho de Lloret… mas não, o destino era Lourdes.

Era já dia 2 e ainda umas escuras 7:30 da manhã quando nos aproximamos do destino ao entrar em França. Não falhámos a verificação do autocarro e do certificado de vacinação na fronteira, como manda a lei por estes dias difusos. Agora são já 11 horas e termino este diário no hotel em Lourdes.

 

Dia 2 – 2 de outubro
Lourdes

Se posso dizer que há dias cansativos, sem dúvida que este foi um deles. Estar a pé desde ontem, praticamente sem dormir e com quase 12 horas de estrada em cima é duro, mas vale a pena. Valerá sempre.

Chegar finalmente a Lourdes foi um alívio, não só porque colocou um certo fim à etapa literal da viagem, mas também porque ao primeiro impacto, o visual, entenda-se, não desiludiu!

Os edifícios algo pitorescos de floreiras nas varandas e janelas que ladeiam as estreitas ruas apinhadas de lojas são uma visão atrativa e desenharam-me desde logo uma curiosidade e uma vontade de passear por ali. A linha pintada de azul no chão e que atravessa ruas e ruelas a isso nos ajuda: passear sem falhar o essencial monumental deste lugar.

Lourdes é essencialmente conhecida por aqui se situar um dos mais reconhecidos santuários da fé católica cristã, erigido após a alegada aparição de nossa senhora a Bernadette Soubirous, em 1858.

Então, passear por Lourdes implica quase obrigatoriamente passear e visitar muitos dos locais relacionados com as aparições – alguns dos quais visitei já hoje (Moulin de Boly, Maison Paternelle e Cachot); mas também reparar no negócio da fé que por aqui se faz, onde cada edifício é hotel nascido por cima de lojas de venda de artigos religiosos.

Ao final do dia um vento quente começou a soprar forte; bastante forte, até; e transformou aquela que haveria de ser a procissão das velas numa procissão sem velas ou de velas incendiadas pelo papel que prometia protegê-las das aragens mais atrevidas. Mas não fora por isso que a procissão não se realizara ou perdera o seu encanto natural, que acontecera quase de igual forma marcando o normal ritmo do trabalho performativo de luzes que vai iluminando o santuário.

Depois disto a luz apagou-se finalmente para descansar após horas sem o fazer, mas sempre com a certeza de que amanhã haverá mais para viver.

 

Dia 3 – 3 de outubro
Lourdes

E houve. O dia começou cedo e chuvoso, um pouco frio até, contrastando com o clima quente sentido ontem.

Não houvera, contudo, chuva suficiente para travar a subida até ao Castel du Fort, que prometera não só conhecimento histórico, mas também vistas incríveis sobre Lourdes. Prometera, mas não cumprira; não por uma incapacidade intrínseca, mas pelas circunstâncias do clima. A chuva calma e densa nublou a vista e encurtou o horizonte. Mas, ainda assim, é possível comprovar a inegável beleza do sítio.

Continuou a chover sem parar, mesmo quando nos decidimos afastar para encontrar o lugar onde pela terra entrar! Perdoem-me a frase rimada, mas a espetacularidade de visitar por pé, por barca e por comboio os 80 metros de profundidade das Grottes de Bétharram assim o exigem.

Depois das grutas e do jantar francês, houve o acaso de, mais uma vez, assistir à procissão das velas que a chuva fez, desta vez, acontecer dentro da basílica. Nunca deixarão de me impressionar as pessoas movidas pela fé, que correm e empurram, que acompanham e tocam, que adoram uma imagem em movimento…

Movendo rápido estão também estes dias. Amanhã não se prevê chuva, a não ser, a princípio, a que cairá dos meu olhos remelados e incrédulos da hora a que irá tocar o despertador… 5 da manhã…

 

Dia 4 – 4 de outubro
Lourdes – Azpeitia (Loyola) – Coimbra

E caiu, tanto, que ainda neste momento se mantém! Escrevo este texto sobre o último dia de viagem já com os olhos apenas semi abertos devido ao cansaço.

Foi um regresso de quilómetros de estrada percorrida entre 3 países (França, Espanha e Portugal), em cerca de 16 horas e apenas com algumas paragens para comer, ir ao WC ou, a mais importante no dia de hoje, para visitar o Santuário de Loyola.

A visita foi curta e rápida para algo cuja grandiosidade e imponência merecia mais; mais tempo, mais atenção.

Mas tempo era algo que ficava curto tendo em conta os quilómetros ainda a percorrer até Portugal. Por isso se partiu, deixando Loyola para trás, mas com vontade de ali voltar, com tempo, com atenção.

E voltarei. Se não ali, a um outro lugar. Melhor ainda se for a um novo lugar. Por agora terminou, mas já ecoa em mim um “ide viajar, mulher!”. 🤗

 

 

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2 thoughts on “Lourdes, o diário de bordo

  1. Fantástica viagem, o diário de bordo está soberbo. Muita coisa vista em apenas 3 dias. Parabéns pela divulgação. Também já sinto esta claustrofobia, 2 anos sem sair da minha ilha da Madeira, navegar é preciso!

    1. Obrigada, Isabel! Precisamos ir, é um facto. Há quem não fora feito para estar parado! ☺️

      Quanto a Lourdes, penso que 2 ou 3 dias são q.b. para conhecer o principal do lugar (excepto se a intenção for ter uma experiência mais religiosa…). 😉

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